Cirurgia com paciente acordado: por que operamos o cérebro "acordado"?

Esse talvez seja um dos temas mais midiáticos que existe na neurocirurgia, afinal todo mundo já viu um vídeo de uma pessoa sendo operado enquanto conversa, toca violão, canta... e a reação quase sempre é a mesma: espanto, e logo depois medo. Faz muito sentido, afinal a ideia de estar consciente durante uma cirurgia no cérebro soa assustadora (será que não sente dor???). Mas essa técnica tem indicações muito precisas, sendo uma das coisas que pode ajudar a evitar sequelas importantes, ao mesmo tempo que não é para todo mundo.
O QUE É A CIRURGIA COM PACIENTE ACORDADO?
O nome já explica boa parte: em determinado momento da cirurgia, o paciente é acordado da sedação e fica consciente, respondendo a comandos, enquanto o neurocirurgião opera. Isso não quer dizer que a cirurgia inteira é feita com o paciente acordado, geralmente a parte de abertura do couro cabeludo e do crânio (que é a parte que pode gerar dor) é feita com o paciente sedado e com anestesia local bem aplicada. O cérebro em si não dói, então podemos cortar, aspirar, manipular o cérebro que o paciente não vai sentir dor (na verdade não vai sentir nada, mal uma sensação estranha ou alguma pressão por causa de alguma manipulação de meninges, vasos sanguíneos ou do próprio couro cabeludo). Então, quando chega a parte de manipular o tecido cerebral, o paciente pode estar acordado sem sentir dor nenhuma ali.
POR QUE FAZER ISSO?
O grande motivo é a localização do tumor. Existem áreas do cérebro chamadas de "eloquentes" — regiões ligadas à fala, à compreensão da linguagem, ao movimento, entre outras funções essenciais. O problema é que essas áreas não estão exatamente no mesmo lugar em todo mundo. A ressonância e os exames de imagem dão uma boa referência, mas não substituem testar a função em tempo real, naquele cérebro específico, durante a cirurgia.
É aí que entra o mapeamento funcional: usamos um pequeno estímulo elétrico na superfície do cérebro enquanto o paciente realiza tarefas — contar números, nomear objetos, mover a mão — e observamos se alguma dessas funções é interrompida. Se for, aquela área é preservada. Isso permite remover o máximo de tumor possível sem comprometer funções que são essenciais para a qualidade de vida do paciente depois da cirurgia.
Existem algumas funções que podem ser testadas mesmo com o paciente acordado, especialmente a parte motora. Mas coisas muito complexas, como raciocínio, reconhecimento, musicalidade, coordenação motora e a própria fala, só temos como monitorar se o paciente estiver desempenhando a tarefa.
COMO FUNCIONA NA PRÁTICA?
A cirurgia acordada não é feita só pelo neurocirurgião. É um trabalho de equipe: um anestesiologista com experiência específica nesse tipo de procedimento, e muitas vezes um fonoaudiólogo ou neuropsicólogo acompanhando o paciente durante a fase acordada, aplicando os testes e observando qualquer alteração.
O preparo começa antes da cirurgia: o paciente é orientado sobre o que vai acontecer, quais tarefas vai realizar, e isso ajuda bastante a reduzir a ansiedade no dia. Durante a fase acordada, o paciente não vê o procedimento (há um campo cirúrgico que separa a área operada do resto do corpo) e o paciente fica interagindo com uma pessoa na sua frente ou realizando a tarefa (tocar violino por exemplo).
QUEM É CANDIDATO?
Não é toda cirurgia de tumor cerebral que precisa ser acordada. A indicação é para casos em que o tumor está próximo ou dentro de áreas eloquentes, onde o risco de comprometer fala, movimento ou outras funções é grande. Também depende da capacidade do paciente de cooperar durante o procedimento — por isso, crianças pequenas ou pacientes com quadros que dificultem a comunicação durante a cirurgia geralmente não são candidatos a essa técnica, e nesses casos usamos outras formas de monitorização.
No geral não é tão traumatizante quanto imagina-se, mas também não é uma situação confortável, afinal você está em uma situação tensa, com a cabeça presa, tendo que realizar a mesma tarefa repetidas vezes. Por isso tentamos encurtar esse tempo ao máximo e só utilizarmos esse procedimento em casos realmente muito necessários. No mundo ideal o paciente deve apenas dormir no início, e acordar já no quarto, já tendo terminado a cirurgia, sem sequelas e com o procedimento tendo sido um sucesso: na maioria dos casos é isso que acontece.
Às vezes, pode ser muito fundamental para um paciente e não tanto para outro, com tumores na mesma área. Se temos um paciente que é engenheiro ou um contador pode ser fundamental a capacidade de fazer cálculos, enquanto para um chefe de cozinha pode não ser tão importante. Por outro lado, musicalidade pode ser muito fundamental para um cantor, enquanto para a maioria das pessoas não é algo que vai gerar prejuízo a qualidade de vida. Por isso que cada caso é um caso diferente e deve ser discutido com a equipe assistente.
É SEGURO?
Sim, dentro do que qualquer cirurgia intracraniana envolve de risco. A grande vantagem da técnica é justamente reduzir o risco de déficit neurológico permanente, porque o cérebro "avisa" em tempo real quando uma área importante está sendo tocada. Isso não elimina todos os riscos da cirurgia, mas é uma ferramenta que ajuda a equilibrar dois objetivos que às vezes competem entre si: tirar o máximo de tumor possível e preservar a função do paciente.
CONCLUSÃO
A cirurgia com paciente acordado é uma das ferramentas mais importantes da neurocirurgia oncológica moderna — não porque é uma técnica "corajosa" ou "diferente", mas porque ela permite decisões mais seguras durante a cirurgia, guiadas pelo próprio cérebro do paciente em tempo real. Quando bem indicada e bem conduzida, o resultado costuma ser uma cirurgia mais precisa, com menor risco de sequela.
Disclaimer profissional
Este texto tem finalidade informativa e educacional. Não substitui consulta médica individualizada, diagnóstico ou plano terapêutico. Cada paciente deve ser avaliado de forma específica por um especialista em neuro-oncologia.

Dr. Matheus Bannach
Neurocirurgião especializado em neuroncologia. Dedica-se ao tratamento de tumores cerebrais e medulares, sempre buscando as técnicas mais avançadas e menos invasivas para seus pacientes.
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