Glioblastoma: o que é e como é tratado hoje?

Glioblastoma é o tumor cerebral primário mais comum e mais agressivo do adulto. Se você está pesquisando sobre tumor cerebral provavelmente já viu esse nome em algum lugar. É um tumor com tratamento difícil, não vou dizer que não seja, mas no mundo novo da oncologia, todos os dias surgem novas drogas, novos conceitos, e novas classificações que podem influenciar muito como ele é tratado e também qual o resultado desse tratamento.
O QUE É O GLIOBLASTOMA
O glioblastoma (também chamado de GBM já que na classificação antiga era chamado de GlioBlastoma Multiforme, devido ao fato de poder assumir vários padrões diferentes na biopsia, mas na nova classificação o que é importa para chamá-lo de Glioblastoma é o IDH ser “selvagem”, ou seja, não ter a mutação nesse gene, portanto não chamamos mais de Multiforme) nasce das células gliais, que são as células de suporte do cérebro, funcionando como uma espécie de "sustentação e nutrição" para os neurônios. Diferente do meningioma, que cresce a partir das membranas ao redor do cérebro, o glioblastoma nasce dentro do próprio tecido cerebral, e essa é uma das razões que torna seu tratamento mais desafiador: ele se infiltra entre os neurônios saudáveis, sem um limite bem definido que separe "tumor" de "cérebro normal".
É considerado um tumor de grau 4 (o mais alto na escala da Organização Mundial de Saúde - OMS), o que significa dizer que ele tem comportamento biológico agressivo: crescimento rápido, capacidade de gerar novos vasos sanguíneos (angiogênese) e áreas de necrose (tecido morto) dentro do próprio tumor.
COMO É DIAGNOSTICADO
O caminho até o diagnóstico geralmente começa com sintomas como dor de cabeça persistente, crises convulsivas, fraqueza em um lado do corpo ou mudanças de comportamento e memória — sinais que já discutimos em outro texto aqui do blog sobre quando uma dor de cabeça merece investigação.
A ressonância magnética com contraste é o exame-chave: o glioblastoma tem características de imagem bem reconhecíveis (realce em anel, edema ao redor, áreas de necrose central), o que já levanta forte suspeita antes mesmo da cirurgia. Mas o diagnóstico definitivo só vem com a análise anatomopatológica e molecular do tecido tumoral, obtida por biópsia ou durante a cirurgia de ressecção.
Essa análise molecular mudou muito o campo nos últimos anos: hoje sabemos que marcadores como a mutação de IDH, a metilação do gene MGMT e outras alterações genéticas ajudam a entender o comportamento do tumor e orientar decisões terapêuticas — não só o nome do tumor no laudo importa, mas o "perfil molecular" dele. Por isso é tão importante uma cirurgia, para pelo menos pegar um pedaço do tumor, mesmo que não se retire todo ele, e através da analise do material identificar marcadores, mutações e características biológicas que vão ajudar a tomar as decisões sobre o tratamento.
COMO É TRATADO HOJE
O tratamento do glioblastoma segue um protocolo bem estabelecido, conhecido como "Protocolo de Stupp", que combina várias frentes:
●Cirurgia — o primeiro passo, sempre que possível, é a ressecção cirúrgica: remover a maior quantidade de tumor com segurança, preservando função neurológica. Estudos mostram que quanto maior a extensão da ressecção, melhor tende a ser a resposta aos tratamentos seguintes. Em tumores localizados perto de áreas eloquentes (fala, movimento, entre outras), pode ser necessário usar recursos como cirurgia com paciente acordado, neuronavegação e monitorização neurofisiológica para operar com mais segurança.
●Radioterapia — após a cirurgia, atua na região onde estava o tumor e em uma margem de segurança ao redor, buscando eliminar células infiltradas que não são visíveis na cirurgia.
●Quimioterapia com Temozolomida — já falamos sobre o mecanismo dela aqui no blog. É usada concomitante à radioterapia e depois em ciclos de manutenção, sendo hoje parte essencial do protocolo padrão.
●Tumor-Treating Fields (TTFields) — tecnologia mais recente, que usa campos elétricos alternados aplicados através de um dispositivo usado na cabeça, interferindo na divisão das células tumorais. Tem sido incorporada ao tratamento em associação com a quimioterapia de manutenção.
O QUE ESPERAR
Aqui tem tem uma noticia complicada e que deve ser interpretada com muita cautela: o glioblastoma continua sendo um dos maiores desafios da neuro-oncologia. Com o protocolo padrão (cirurgia + radioterapia + temozolomida), a sobrevida mediana relatada na literatura fica em torno de 14 a 17 meses. Isso significa que metade dos pacientes vive mais que esse período, e metade vive menos. Isso não quer dizer que quem tem diagnóstico vai viver isso, pode ser mais ou pode ser menos, já que existem muitos fatores que importam, mas de fato não é um tumor que pode ser controlado por muito tempo.
Esse número varia bastante conforme fatores como idade, estado funcional do paciente, extensão da ressecção cirúrgica e, principalmente, o perfil molecular do tumor (como a metilação do MGMT). Pacientes mais jovens, com bom estado funcional, ressecção mais ampla e tumor MGMT metilado tendem a ter uma melhor evolução. Por isso qualquer estimativa de prognóstico precisa ser individualizada e discutida diretamente com a equipe médica responsável pelo caso — número de artigo científico não é previsão para uma pessoa específica, é apenas uma referência para a equipe assistente.
O que posso dizer é que o campo está em movimento constante: novas combinações terapêuticas, estudos com imunoterapia, vacinas tumorais e terapias direcionadas por perfil molecular estão sendo testados ativamente, inclusive em centros de pesquisa no Brasil.
POR QUE TRATAR EM UM CENTRO ESPECIALIZADO FAZ DIFERENÇA
O glioblastoma é um tumor que exige novas decisões a todo momento, e apesar de existir um protocolo, esse é apenas uma sequência padrão para começar o tratamento, mas a partir dele o tumor vai assumir um comportamento, e novas decisões vão estar constantemente sendo avaliadas: nova cirurgia? Iniciar outra medicação? Nova irradiação?; então não é um tratamento de "um médico só". Tratar em um Cancer Center ou centro de referência em neuro-oncologia muda a experiência do cuidado em pontos concretos:
●Tumor board multidisciplinar — o caso é discutido entre neurocirurgião, neuro-oncologista, radioterapeuta, neuropatologista e outros especialistas antes e depois da cirurgia, o que ajuda a ter varias opiniões sobre qual a melhor estratégia para aquele tumor específico.
●Volume cirúrgico e tecnologia — centros com maior experiência em cirurgia oncológica de tumores cerebrais tendem a ter acesso a recursos como neuronavegação, monitorização neurofisiológica intraoperatória, cirurgia com paciente acordado e ressonância intraoperatória — ferramentas que ajudam a ampliar a ressecção com mais segurança.
●Acesso a estudos clínicos — centros de referência costumam ter mais protocolos de pesquisa ativos, o que amplia as opções terapêuticas disponíveis para o paciente elegível.
●Suporte integrado — acompanhamento com equipe de suporte (reabilitação, psico-oncologia, cuidados paliativos quando indicado) tende a ser mais estruturado, o que impacta diretamente a qualidade de vida durante o tratamento.
Esses fatores, em conjunto, ajudam a explicar por que a escolha do centro de tratamento é uma decisão tão relevante quanto a escolha do protocolo terapêutico em si.
CONCLUSÃO
Glioblastoma é um diagnóstico difícil, mas o cuidado hoje é multidisciplinar, estruturado e em constante evolução — cirurgia, radioterapia, quimioterapia e novas tecnologias trabalhando juntas. Entender cada etapa ajuda o paciente e a família a caminhar por esse processo com mais clareza e a fazer perguntas certas para a equipe médica.
Disclaimer profissional
Este texto tem finalidade informativa e educacional. Não substitui consulta médica individualizada, diagnóstico ou plano terapêutico. Cada paciente deve ser avaliado de forma específica por um especialista em neuro-oncologia.

Dr. Matheus Bannach
Neurocirurgião especializado em neuroncologia. Dedica-se ao tratamento de tumores cerebrais e medulares, sempre buscando as técnicas mais avançadas e menos invasivas para seus pacientes.
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