Radioterapia x Radiocirurgia: qual a diferença?

Esses dois termos aparecem juntos com frequência nas conversas sobre tratamento de tumor cerebral, e é comum o paciente sair da consulta com uma dúvida: afinal, é radioterapia ou é cirurgia? A resposta curta é: nenhuma das duas, mas é algo mais parecido com a radioterapia, mas funciona de forma diferente, e a escolha entre uma e outra depende de características específicas do tumor.
O QUE É A RADIOTERAPIA CONVENCIONAL?
A radioterapia tradicional trata uma área do cérebro (o leito do tumor, mais uma margem de segurança) com sessões diárias ao longo de várias semanas. Cada sessão libera uma dose relativamente baixa de radiação. O fracionamento é feito justamente para dar tempo do tecido saudável se recuperar entre uma sessão e outra, enquanto o efeito cumulativo nas células tumorais vai se acumulando. É a abordagem usada, por exemplo, depois da cirurgia de um glioma, cobrindo uma região mais ampla onde pode haver células infiltradas que não aparecem na imagem.
O QUE É A RADIOCIRURGIA?
Apesar do nome, a radiocirurgia não é uma cirurgia, pelo menos não no sentido de se fazer um corte, em uso de anestesia, necessitando internação e centro cirúrgico. É uma forma de radioterapia de altíssima precisão, que entrega uma dose concentrada de radiação diretamente no tumor, geralmente em uma única sessão (ou em poucas sessões, quando é chamada de radiocirurgia fracionada). A precisão é da ordem de milímetros, o que permite tratar lesões pequenas muito perto de estruturas sensíveis, como o nervo óptico, com baixo impacto no tecido ao redor.
Originalmente a radiocirurgia era para ser em uma dose, por isso a ideia de ser uma “cirurgia”. Então você poderia dar uma dose super alta no tumor, induzindo morte celular, em uma única abordagem, similar a uma cirurgia convencional. Depois perceberam que essa estratégia era boa, mas poderia gerar muita toxicidade se a área irradiada fosse muito grande, necessitando de uma quantidade total de radiação muito grande, então foi definido que a radiocirurgia poderia ser dada em até 5 sessões (radiocirurgia fracionada), muito menos do que a radioterapia convencional, que pode chegar a mais de 30 sessões.
POR QUE A DOSE É DIVIDIDA (OU NÃO)?
A lógica por trás dessa diferença é basicamente geométrica e biológica. Quando a lesão é pequena (até cerca de 3 centímetros) é possível concentrar uma dose alta em uma área pequena sem expor muito tecido saudável ao redor, o que permite fazer isso em dose única. Já quando a área a ser tratada é maior, ou está encostada em estruturas mais sensíveis à radiação, fracionar a dose ao longo de várias sessões reduz o risco de dano ao tecido normal, mesmo que isso signifique várias idas ao serviço de radioterapia.
QUANDO USAMOS CADA UMA
Cada situação clínica pede uma abordagem diferente:
●Metástases cerebrais — quando há até 3-4 lesões, a radiocirurgia costuma ser a primeira escolha, já que trata cada lesão com precisão e preserva mais o tecido cerebral saudável. Quando há muitas lesões espalhadas, a radioterapia de cérebro total (que trata todo o encéfalo) pode ser mais indicada, apesar de ter mais impacto cognitivo a longo prazo.
●Meningiomas e schwannomas pequenos — frequentemente tratados com radiocirurgia, principalmente quando estão em locais de acesso cirúrgico difícil ou quando o paciente tem risco cirúrgico elevado.
●Gliomas — geralmente tratados com radioterapia fracionada convencional após a cirurgia, já que o objetivo é cobrir uma área maior de possível infiltração tumoral, e não um alvo único e bem definido.
Basicamente, quando se tem um alvo muito bem delimitado é mais usada a radiocirurgia, mas quando o alvo é mais amplo, sem limites bem definidos é mais comum usar radioterapia. Por isso que no pós operatório é mais comum usar radioterapia, já que o tumor foi retirado e restou apenas uma área mal definida em volta de onde estava esse tumor.
Outro fator é a quantidade de áreas a serem irradiadas. Se for irradiar áreas pequenas e poucas pode-se usar radiocirurgia, mas múltiplas áreas separadas, com extensão grande, tendem-se a usar radioterapia, apesar de não ser uma regra. A ideia é simples: se eu puder dar uma dose mais concentrada e localizada eu diminuo a lesão as áreas em volta que teoricamente estão mais normais. Por outro lado, se eu tenho múltiplas áreas ou áreas grandes, eu perco essa vantagem, já que os múltiplos focos vão fazer com que muitas áreas adjacentes sejam atingidas pelo acúmulo das múltiplas lesões tratadas, gerando o mesmo efeito da radioterapia, e com mais risco de complicações pela dose maior em um curto espaço de tempo.
Outra coisa que impacta na escolha é a estratégia global de tratamento. Se é um tumor que tem múltiplas outras opções de tratamento (várias linhas de quimioterapia, hormonioterapia, imunoterapia, braquiterapia etc.) eu posso ter um paciente que vai viver mais tempo, por isso pode sofrer consequências da radiação por mais tempo em caso de toxicidade ou efeitos colaterais. Enquanto se eu tenho um tumor com menos opções, talvez uma dose alta de radiação seja uma das poucas armas que temos para lutar contra o tumor. É por isso que temos que sempre pesar o “risco x benefício” de cada paciente, de cada tumor e de cada contexto.
COMO É O DIA DO TRATAMENTO
Na radiocirurgia, o processo costuma envolver a confecção de uma máscara personalizada de imobilização (para garantir que a cabeça fique exatamente na mesma posição durante o planejamento e o tratamento), seguida de exames de imagem para definir com exatidão o alvo, e então a aplicação da radiação, geralmente em um único dia, com o paciente indo para casa logo depois. Já a radioterapia fracionada é um processo mais longo, com sessões diárias (geralmente de segunda a sexta) ao longo de semanas, mas cada sessão é rápida e, assim como a radiocirurgia, indolor.
CONCLUSÃO
Nenhuma das duas técnicas é "melhor" de forma absoluta — são ferramentas diferentes, escolhidas de acordo com o tamanho, a localização e o tipo do tumor. Entender essa diferença ajuda o paciente a compreender por que o radioterapeuta ou neuro-oncologista está propondo um caminho específico para o seu caso.
Disclaimer profissional
Este texto tem finalidade informativa e educacional. Não substitui consulta médica individualizada, diagnóstico ou plano terapêutico. Cada paciente deve ser avaliado de forma específica por um especialista em neuro-oncologia.

Dr. Matheus Bannach
Neurocirurgião especializado em neuroncologia. Dedica-se ao tratamento de tumores cerebrais e medulares, sempre buscando as técnicas mais avançadas e menos invasivas para seus pacientes.
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